segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Resenha: Brincando de empinar pipas

HOSSEINI, Khaled. O caçador de pipas. São Paulo: Nova Fronteira, 2005.

O livro “O caçador de pipas” já foi lido por muitos e quem não leu já deve ter ouvido falar bastante deste livro, pois ele é muito interessante. Este livro é muito emocionante, porque nele crianças são sempre crianças, como em qualquer parte do mundo, e só querem brincar, de empinar pipas ou qualquer outra brincadeira.

O livro conta a história de Amir e Hassan, da amizade entre os dois, os valores, a lealdade, a coragem, e a covardia da parte de Amir. Nos primeiros capítulos, o livro é agradável, mas isso não acontece durante toda a história, principalmente nos últimos capítulos que mostra um Afeganistão totalmente destruído.

No livro conta a história de Amir, um menino rico, filho de um comerciante bem sucedido, que, apesar de ter tudo o que precisa, não tem o que mais gostaria de ter: uma mãe, que ele nunca conheceu, e um pai mais presente. E por ele sentir essa falta, é um menino frágil e carente.

Já Hassan, seu empregado, que era pobre, e foi abandonado pela mãe, teria todos os motivos para ser igual a Amir, já que era considerado inferior por ser um hazara, fazia parte de uma etnia discriminada, mas Hassan era corajoso, confiante e totalmente fiel a Amir.

O livro começa com Amir já adulto morando nos Estados Unidos. Nos primeiros capítulos, fala da infância de Amir e Hassan em Cabul, das brincadeiras e travessuras deles, e também fala de momentos divertidos, como quando descobriram que seu ídolo, John Wayne, não era iraniano e nem falava farsi. Fala muito da casa, do pai de Amir, de como era bonita e da vista que tinha da varanda para as cerejeiras, fala da cidade de Cabul e dos lugares bonitos que lá existiam .

Já nos capítulos seguintes, dá uma ênfase ao que aconteceu com Hassan, porque foi o último inverno que ele correu atrás de uma pipa, e também da covardia de Amir, em não ajudar o amigo quando ele mais precisou; e da partida de Hassan e seu pai da casa de Amir.

Depois, vai para o ano de 1981, quando Amir e seu pai estão fugindo da guerra, e da chegada de Amir nos Estados Unidos, da vida simples que levava com seu pai, de seu casamento com Soraya, da morte de seu baba (PAI), os anos em que viveu casado com Soraya sem poder ter filhos, e de como melhorou na vida. Então, tem-se um salto para o ano de 2001, quando Amir volta ao Afeganistão, e encontra um país destruído, da busca de Amir pelo filho de Hassan, Sohrad, que tinha ficado órfão, e havia sido levado para um orfanato, onde foi vendido para Asseff, o menino que no passado aterrorizava a vida de Amir e Hassan.Como agora Amir precisa entrar em uma luta corporal para reaver Sohrad, e como ele precisa conquistar a confiança dele (Sohrad), que era uma criança muito sofrida, que já não tinha confiança em ninguém, e precisa levar Sohrad com ele para os Estados Unidos.

No livro conta que o Afeganistão era bom antes dos ataques, mas não fala que apesar de estar sempre em guerras o Afeganistão não deixou de existir mesmo debaixo de duas tiranias diferentes – russa e Talibã. Não fala também que o povo afegão conseguiu sobreviver a esses ataques. Interessante notar que o livro não fala que o governo dos Estados Unidos apoiou o Talibã na tomada do poder, nem das invasões e bombardeios americanos que ocorreram anos depois que deixou o Afeganistão destruído, com essa guerra sem fundamentos, onde vários afegãos inocentes morreram, e ainda morrem sem poder escapar da fúria dos governantes. Não mostra a opinião desfavorável que a maioria dos povos árabes têm a respeito dos EUA e do sistema capitalista. Este é um outro aspecto dos norte-americanos: relatam só os “benefícios” levados pelos Estados Unidos aos outros, e nunca fala da destruição que os EUA ajudam a promover contra os países pobres.

Mas, apesar de tudo, “O caçador de pipas” é uma história muito boa. Onde os personagens são tratados de forma extremamente humana. Desperta no leitor inúmeros sentimentos diferentes. Desde amor até indiferença e revolta. “O caçador de pipas” é uma história com acontecimento muito parecidos com a realidade, é um livro muito bom, reflexivo e comovente.

Soeli Pereira, acadêmica do Curso de Letras, da Universidade Federal da Fronteira Sul, Campus Realeza-PR.

Resenha: Auto-ajuda ou obra literária?


CURY, Augusto. De gênio e louco todo mundo tem um pouco. São Paulo: Academia de Inteligência, 2009. 206 p.

Após o estrondoso sucesso do livro “O vendedor de sonhos” de Augusto Cury, livro este que vendeu milhões de exemplares no Brasil e no mundo, foi lançado em outubro de 2009 pela Editora Academia de Inteligência o romance “De gênio e louco todo mundo tem um pouco”. Nesta obra, Cury revela as características íntimas de dois dos personagens do seu romance “O vendedor de Sonhos”, Boquinha e Prefeito. Estes são marcados pelo escândalo e pela irrequietude e, por conta disso, metem-se em muitas confusões tornando a narração cômica e agradável, além de revelar aspectos sociais e humanitários por conta das ações desses dois personagens centrais.

O escritor da obra, Dr. Augusto Jorge Cury, nascido no dia 2 de outubro de 1958, na cidade de Colina - São Paulo, é psiquiatra, cientista, escritor e fundador da Academia de Inteligência, instituto esse que promove o treinamento de profissionais das áreas da educação e psicologia. Ao longo de sua carreira como escritor, publicou vários romances como “Superando o Cárcere da Emoção”, em dezembro de 2006, “O Código da Inteligência”, em maio de 2008, “O Vendedor de Sonhos e a Revolução dos Anônimos” , em janeiro de 2009, dentre outros. Cury conquistou seu espaço no mundo literário com um estilo único, vendendo mais de 10 milhões de exemplares no Brasil e ganhando publicações em mais de 50 países.

Considerado um escritor de livros do gênero “auto-ajuda”, Cury carrega seus personagens com uma bagagem de características que nos fazem questionar as condições de vida, a humanidade das pessoas, os métodos para chegar à solução dos problemas psicológicos e também proporcionar, através de auto-análises, o desenvolvimento do ser pensante. Essas características diferenciam o trabalho de Cury das tradicionais publicações do gênero auto-ajuda, em que predominam clichês como as “infalíveis receitas da felicidade” interligadas com o jargão “pegue, use e mude sua vida”.

Augusto Cury não deixa por menos em sua obra de ficção “De gênio e louco todo mundo tem um pouco”, pois ao apresentar a vida de seus dois personagens, aborda duas questões intrínsecas à sociedade contemporânea. Na primeira mostra a vida de Bartolomeu, vulgo Boquinha, cuja infância não fora nada invejável, seu pai era um bruto e frequentemente espancava sua mãe que, devido aos maus tratos, falecera muito jovem. Depois disso, Boquinha é sujeitado a uma série de adoções e fugas, mas foi no período em que esteve em um orfanato que ele desenvolveu um pensamento crítico em relação ao que se passava ao seu redor. Na segunda, ele apresenta outro personagem, Barnabé, apelidado de “Prefeito” devido ao hábito de realizar discursos de cunho político por onde passava, o qual não teve uma vida muito diferente da que levou Boquinha com exceção do fato de que não chegou a conhecer seus pais.

Cury expõe Boquinha e Prefeito em meio a uma sociedade capitalista, onde ambos são obrigados a viver dependendo da boa ação dos cidadãos, já que não possuíam emprego, salário, ou qualquer outra fonte de renda. Nesse momento da narração, entra em cena mais um personagem, o Vendedor de Sonhos, o qual utiliza da manipulação e persuasão mental para gerar ânimo nas pessoas desesperadas e também para motivá-las a segui-lo em sua peregrinação “vendendo sonhos” a outras pessoas necessitadas.

Os dois personagens criados por Cury vão seguir o Mestre e descobrir que há pessoas em estado de decadência social, outras que perderam tudo o que possuíam desde bens materiais até matrimoniais, outras tomadas pela depressão devido à tensão dos problemas enfrentados no dia-a-dia, e tantos outros casos que os deixavam aturdidos. Mas nesse árduo caminho, acaba-se formando uma família, cuja alegria encontrada ambos outrora nunca puderam desfrutar.

Augusto Cury de certa forma consegue “mascarar” os personagens atrás dos conselhos e métodos utilizados no gênero auto-ajuda, fazendo com que o imperativo, implícito no personagem, chegue até o leitor e o convença a tomar uma atitude. O autor é inteligente ao explorar as condições vividas pelos personagens, e revelar, após isso, que é possível angariar um futuro de muito sucesso diante de uma situação em extrema pobreza.

Talvez seja uma utopia Cury pensar assim, mas, considerando a qualidade da produção, isso não diminui em nada o valor literário da obra, que nos apresenta um contexto e um enredo bem explorado, personagens riquíssimos em conteúdo e outros. Mas a essência está no conjunto, ou seja, no poder que a obra tem em influenciar o seu leitor. Esse método Cury domina com facilidade, nota-se semelhanças entre sua obra e os pensamentos do inglês Benjamin Franklin, figura histórica mundialmente conhecida na área da auto-ajuda, que pregava a sobriedade, a justiça, a moderação, a tranquilidade e a humildade, defendidos também por Cury, visando um alcance geral da sociedade em procurar o seu trabalho, e não apenas uma classe separada tida como desesperada.

Alceni E. Langner. Acadêmico do Curso de Letras Português e Espanhol - Licenciatura da Universidade Federal da Fronteira Sul - UFFS, Campus Realeza - PR.

Resenha: Iracema, a Musa Indígena

ALENCAR, José de. Iracema. São Paulo: Ciranda cultural, 2009.109 p.

Uma das obras mais populares da literatura brasileira é “Iracema”, romance consagrado do autor José de Alencar. O escritor nasceu no dia primeiro de maio de 1829 no Ceará, na cidade de Mecejana, de onde mudou-se no ano seguinte com sua família para o Rio de Janeiro. Estabelecendo-se lá, passou a escrever livros, casou-se, e um ano após publicou “Iracema”, mais precisamente no ano de 1965, uma produção nacionalista/indigenista fazendo parte da trilogia indianista do autor, que também publicou diversas outras obras como: “Diva”, “Lucíola”, “Senhora”, “O tronco do ipê”, entre outras de reconhecimento nacional.

Se tratando de José de Alencar, não poderiam faltar histórias que envolvem romances, porém em “Iracema” os personagens são na sua maioria índios com características marcantes e costumes acentuados num cenário totalmente primitivo. A personagem “Iracema, a virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais negros que a asa da graúna e mais longos que seu talhe de palmeira” (p. 12) é a protagonista da história juntamente com seu amado Martim.

A história é inusitada pelas características indígenas até então inexploradas por José de Alencar em suas publicações, e também chama atenção pelo cenário. A obra possui características de romance entre uma musa indígena Iracema e Martim, o invasor branco, que aos poucos conquistou a sua confiança e amor com seu jeito cavalheiro. Juntos, Iracema e Martim vivem uma história de amor cheia de desafios e aventuras, até que para seguir seu amado “guerreiro branco” Iracema abandona suas origens e cultura.

A obra impõe-se tanto pelas suas características históricas, quanto pela abordagem que o autor faz ao amor do casal. A invasão do homem branco em territórios indígenas, a influência de outros povos nas tribos ficam evidentes e a forma que ocorreu a invasão exercida por Martim podem ser observados no decorrer do livro.

A riqueza de detalhes e excelente descrição tornam o livro uma ótima opção de leitura, não apenas para admiradores da literatura brasileira, mas também por pessoas que em seu dia-a-dia procuram conhecer um pouco mais da história do Brasil e diferentes culturas.

Daize Raquel Pereira, acadêmica do Curso de Letras da UFFS - Universidade Federal da Fronteira Sul, Campus Realeza - PR.

Resenha: Um encontro com Deus na Cabana

YOUNG, Willian P. A cabana. Rio de Janeiro: Sextante, 2008.236p.

O livro “A Cabana” é com certeza sucesso no mundo todo, lançado em 2007, foi publicado primeiramente em uma editora pequena nos Estados Unidos e se tornou em pouco tempo um dos mais lidos, com milhões de exemplares vendidos.

O autor desse livro fantástico, Willian P. Young, nasceu em 11 de maio de 1955, em Grande Prairie, Estado de Alberta no Canadá, porém passou a maior parte de seus primeiros 10 anos com seus pais missionários nas montanhas de Nova Guiné (Papua Oeste), convivendo com os “Dani” - uma tribo tecnologicamente da idade da pedra. Estes tornaram-se a sua família e como foi a primeira criança branca e forasteiro que aprendeu sua língua, Young foi extraordinariamente aceito em sua cultura e comunidade.

Como o próprio autor diz: “Este livro deve ser lido como se fosse uma oração”, e realmente ele tem toda razão, sua história é surprendente, singela, profunda e todas as pessoas que consideram o mundo injusto e cruel, e acham que a culpa é de Deus, deveriam ler e absorver para si essa lição fenomenal.

A história inicia contando-nos sobre uma viagem de fim de semana, em que a filha mais nova de Mack Allen Phillips é raptada. Depois de muitas buscas, são encontradas provas, em uma cabana abandonada, de que a menina foi brutalmente assassinada.

Após quatro anos vivendo numa tristeza profunda causada pela culpa e pela saudade da menina, Mack recebe um estranho bilhete, aparentemente escrito por Deus, convidando-o para voltar à cabana onde aconteceu a tragédia. No começo, Mack imaginava que isso seria apenas uma brincadeira de mau gosto, todavia não conseguia parar de pensar no bilhete, então decidiu ir até à cabana onde sua filha teria sido brutalmente assassinada.

Apesar de desconfiado, ele vai ao local do crime numa tarde de inverno e entra na cabana, onde começa a reviver seu mais terrível pesadelo. Mas o que ele encontra lá muda o seu destino para sempre: Mack tem um encontro com Deus, e descobre as respostas para todas as perguntas sobre seu sofrimento. É surpreendente para quem está lendo, pois o livro foca o relacionamento do homem com Deus, cada página do livro nos instiga a curiosidade de saber o que realmente aconteceu e nos desperta uma reflexão de nossas atitudes como ser humano perante Deus.

Daniela Farias de Souza. Acadêmica do Curso de Letras – UFFS – Universidade Federal da Fronteira Sul, Campus Realeza.

Resenha: “Ficção cativante e envolvente”

YOUNG, William P. A Cabana. Rio de Janeiro: Sextante, 2008. 236 p.

“A Cabana” foi produzida por William P. Young, o qual nasceu em Alberta, no Canadá, porém passou grande parte de sua infância na Papua – Nova Guiné. Pagou seus estudos religiosos trabalhando como DJ, salva-vidas e outras profissões, formou-se em Religião em Oregon, nos Estados Unidos da América. Sua grande obra e, por enquanto, único sucesso é “A Cabana”.

O livro “A Cabana” foi publicado primeiramente nos Estados Unidos por uma editora pequena, o qual através da indicação de leitores, se tornou um fenômeno de venda, vendendo mais de 12 milhões de cópias pelo mundo, chegando ao Brasil em 2008, com tradução de Alves Calado.

Apesar de “A Cabana” ser uma ficção cativante e envolvente, Young recebeu várias críticas de pessoas envolvidas diretamente com a religião, pois segundo os críticos, o autor aborda a religião e o conceito de Deus de forma diferenciada do que está na Bíblia. No decorrer de sua obra, Young comete alguns equívocos em relação à Bíblia, os quais tenta disfarçar. Destes, os dois que mais me chamou à atenção foram quando disse, “Não somos três deuses e não estamos falando de um deus com três atitudes, como um homem que é marido, pai e trabalhador. Sou um só Deus e sou três pessoas, e cada uma das três é total e inteiramente o um” (p.91), enquanto que a bíblia traz que são três pessoas distintas, mas não separadas como o livro apresenta. O outro equívoco é que ele diz que Deus e o Espírito Santo possuem corpo físico, porém a Bíblia diz o contrário.

Em seu contexto, a obra também pode ser encarrada como auto-ajuda, pois no decorrer da história irá utilizar questões ou acontecimentos que muitas vezes ocorrem no dia-a-dia. Young inicia sua obra falando da infância sofrida de Mack, cujo pai era um bêbado, mas não daqueles que “enche a cara” e depois vai dormir, mas sim que bate na mulher.

Aos 13 anos, Mack recebe uma surra, ou melhor, é espancado por seu pai e por isso fica vários dias sem poder andar. Quando melhora um pouco, mesmo quase não conseguindo andar, sai de casa. Porém, antes coloca veneno em todas as garrafas de cachaça que pode encontrar, nos anos seguintes passa fora do país trabalhando e com isso manda dinheiro para seus avós repassarem à sua mãe.

Com o tempo se casa com Nan, e após 33 anos de casado eles já têm cinco filhos, três meninos e duas meninas, os quais se chamam Jon, Tyler, Josh, Katherine e Melissa ou Missy como costumavam chamá-la. Em uma viagem que fizeram num final de semana, o qual era para ter sido muito divertido e alegre, Missy desaparece misteriosamente. No decorrer do tempo e depois de muita investigação, encontram em uma velha cabana vestígios de que ela havia sido assassinada, porém nem seu corpo ou o assassino foram encontrados.

Após muita tristeza e culpa, Mackenzie Allen Phillips recebe um bilhete marcando um encontro na cabana onde sua filha foi assassinada, o mais estranho é que estava assinado por Deus. Mesmo com dúvidas e incertezas por não saber o que fazer vai ao encontro, chegando lá encontra Deus, Jesus e Espírito Santo. Ali passa o final de semana conversando com os três, conforme as conversas vão se desenrolando, Mack vai controlando sua dor e raiva.

Depois de um longo final de semana, Mack se conforma com a morte de Missy, logo que se despedem pega o jipe e volta em direção à sua casa. No caminho sofre um gravíssimo acidente, ficando em coma por um bom tempo, mas se quiser saber o final terá de ler a obra. O que posso adiantar é que você se surpreenderá com o final.

Edson Sinhorin, Acadêmico de Letras, Licenciatura em Português e Espanhol. Universidade Federal da Fronteira Sul – UFFS. Campus Realeza – PR

Resenha: “O cortiço”: o reflexo de uma realidade

AZEVEDO, Aluísio. O cortiço.2 ed. São Paulo: Ciranda Cultural, 2008. 160p.

Publicado em 1890, “O cortiço” é um romance de autoria do escritor Aluísio Azevedo (1857-1913). Aluísio Azevedo, além de ser escritor, também era cronista, desenhista, jornalista, entre outros - talvez por isso conseguia relatar muito bem e com tantos detalhes a realidade de sua época. A obra intitulada “O cortiço” é um perfeito exemplo do detalhismo, da variedade de seu vocabulário e da intenção de transmitir o que se passava na realidade do Brasil no fim do século XIX e início do XX. Este romance, por ter sido escrito em outra época, apresenta algumas formas de linguagens que podem gerar dificuldades de entendimento por parte do leitor, se este não tiver um pouco de conhecimento sobre este vocabulário. O autor também utiliza-se muito do zoomorfismo (segundo um artigo postado no Wikipedia, “consiste em comparar personagens a animais quando elas se deixam guiar pelos instintos”). Estas são características que explicam o porque desta obra ser considerada um marco do Naturalismo (escola literária conhecida por ser a radicalização do Realismo) no Brasil.

A história começa com João Romão, que, após trabalhar muitos anos para um velho vendeiro, ganha suas contas e acaba recebendo toda a venda (mercado) em que trabalhava como pagamento. Depois de ter melhorado um pouco sua situação financeira, João enamora-se por uma negra (Bertoleza), propriedade de um velho cego. Juntamente com tudo isto, crescia em João Romão uma sede de riqueza e a ânsia de construir um cortiço, onde comportaM-se casinhas e tinas para as lavadeiras. Para conseguir o que almejava, João chega a roubar e entrar em uma enorme desavença com seu vizinho (Miranda) por alguns palmos de terra.

No decorrer da obra, o cortiço vai cobrindo-se de moradores, e com isso passa a possuir um “emaranhado” de histórias a respeito de seus habitantes e sobre alguns vizinhos, como os residentes da casa de Miranda. Entre os tantos acontecimentos em torno do cortiço, como festas, brigas, traições, etc., alguns se destacam. A chegada e a trama em torno de Jerônimo (funcionário da pedreira de João Romão) e sua esposa Piedade é um destes casos. Os dois chegam em meio a fuxicos e intrigas criadas por vizinhos, porém com o passar do tempo conseguem adquirir o respeito da comunidade, por se tratarem de cidadãos de bem e trabalhadores.

No entanto, com a chegada de Rita Baiana (“negra dos quadris inquietos”) as coisas mudam, Jerônimo ao lhe, ver dançar “enlouquece” e não para mais de pensar na mulata, chega ele a encenar uma doença para que a negra fosse atendê-lo, deixando sua esposa desconfiada sobre o que estaria havendo entre os dois. Por fim, Jerônimo e Rita acabam fugindo juntos. Além deste, outros trechos de “O cortiço” apresentam alguns fatos de apelo sexual, algumas brigas com um outro cortiço, local onde alguns dos moradores despejados por João Romão iam se refugiar.

Em suma, “O cortiço” é uma verdadeira história da vida real, com personagens reais, trabalhadores, com qualidades, defeitos e desejos. Por isso que este é um dos livros brasileiros mais lidos até hoje, sendo que em apenas uma obra você encontra um ótimo enredo e ainda consegue analisar fatores ou características históricas, muito fortes e representadas muito bem, sobre esta época.

Eduardo Santos: Acadêmico de Letras: Universidade Federal da Fronteira Sul-UFFS

Resenha: Qual o preço a ser pago por uma decisão errada?

ROSSEINI, Khaled. O caçador de pipas. São Paulo: Nova Fronteira, 2006

Khaled Rosseini, escritor, nasceu no Afeganistão, e em 2008 tornou-se conhecido mundialmente, pois era de sua autoria o livro mais vendido do ano, intitulado “O caçador de pipas”. O mesmo virou best-seller, com milhões de cópias vendidas, e mais tarde virou filme, rotina habitual dos livros que são sucesso, em especial os romances.

O romance conta a história de dois garotos afegãos, com quase a mesma idade, criados desde seu nascimento no convívio da mesma casa. Em um país e uma época em que as castas eram seguidas a risca, Amir era um pashtun, etnia dominadora, e seu fiel e único amigo Hassan, era um hazara, etnia dominada. Amir tinha uma relação fria e formal com o pai, que o criou sozinho; seu pai tinha grande carinho por Hassan, que era filho de seu empregado.

O livro é reflexivo, e trata do sentimento mais humilhante para o homem, a covardia. Amir, que sempre teve a lealdade de seu amigo, não aproveitou a oportunidade de retribuí-la, acovardou-se e não fez nada para evitar que seu melhor amigo fosse violentado sexualmente por um grupo de meninos que o perseguiam e o humilhavam em função de sua casta.

O livro foi um sucesso, e continua sendo, pois o autor retrata de forma cuisadosa e sensível os sentimentos humanos, desde o amor, o ódio, a inveja, até a revolta. É uma história realmente triste, causando choro a alguns leitores, então se você ainda não leu, não espere um final feliz.

Além da narrativa, o leitor passa informações muito ricas sobre o Afeganistão, a história se passa na década de 1970, retratando a queda da monarquia e o domínio do Talibã.

Vale a pena ler, e refletir sobre como conduzimos nossa vida, e para percebermos que muitas vezes não precisamos receber um castigo por algo que fizemos ou deixamos de fazer para outra pessoa, pois a culpa que carregamos em nossa consciência já é a cruz que teremos que carregar pelo resto de nossas vidas.

Recomendo a leitura do livro, mas ao lê-lo procure senti-lo em todos os seus aspectos e detalhes, e afirmo que essa leitura acrescentará alguns valores importantes à sua vida.

Francieli dos Santos – Acadêmica de Letras – Universidade Federal da Fronteira Sul.

Resenha: O amor e o ódio

CASTELO BRANCO, Camilo. Amor de Perdição. São Paulo: Klick Editora,1997,160p.

O livro Amor de Perdição foi escrito pelo autor Camilo Castelo Branco, o qual na época estava na prisão,pois havia sido condenado por adultério. Durante toda a sua vida, passou por momentos difíceis e transmitiu para seus livros emoções fortes e contagiantes. Um mundo criado à sua imagem e semelhança. Há sentimentos de paixão, drama, ódio, amor, blasfêmia, provoca elogios e críticas. É nesse meio que surgiu ”Amor de Perdição” que nos traz a bela história de amor de Simão Botelho e Teresa Albuquerque que são de famílias rivais da cidade de Viseu em Portugal.

Tadeu de Albuquerque, pai de Teresa, ao descobrir o romance, trata logo de prometer a mão de sua filha a seu sobrinho Baltasar Coutinho, mas ela rejeita o pretendente, fato que incomoda muito seu pai. Baltasar se sentindo desprezado e ofendido alia-se com o seu tio e juntos tentam decidir o destino de Teresa, tentam obrigá-la a esquecer Simão com a promessa de mandá-la para um convento. Teresa com medo de seu pai promete afastar-se de Simão, mas não aceita casar-se com seu primo Baltasar.

Domingos Botelho, pai de Simão, muito irritado com a história, decide mandar Simão para Coimbra para concluir seus estudos e assim pôr um fim no romance com Teresa. Porém, nem mesmo a distância é capaz de destruir esse sentimento, pois Teresa mesmo trancada em sua casa escrevia para Simão contando os problemas que passava e que teria que passar com as pressões de seu pai e de Baltasar, comunicação essa que uniu mais ainda os dois. Simão, enlouquecido de saudades, resolve voltar a Viseu para rever Teresa e se hospeda na casa de João da Cruz, homem forte e fiel. Simão e João vão a uma festa na casa de Teresa, no meio da festa Teresa tenta falar com Simão e Baltasar percebe a presença de Simão e arma a maior confusão, dois criados de Baltasar são mortos e Simão sai ferido e volta para a casa de João da Cruz para recuperar- se dos ferimentos, Teresa é mandada para o convento.

Mariana, filha de João da Cruz, torna-se a enfermeira de Simão e acaba se apaixonando por ele, mas mesmo assim resolve ajudar Simão a se comunicar com Teresa. Mariana vai até o convento e traz cartas de Teresa. Simão ao tomar conhecimento que Teresa vai ser transferida para outro convento com muito mais segurança e em outra cidade fica furioso e decide roubá-la do convento.

Ao raptá-la, aparece Baltasar que tenta impedir a fuga e surge uma enorme confusão, mesmo com tantas testemunhas Simão atinge Baltasar com um tiro mortal. João da Cruz tenta dar fuga a Simão que se recusa a fugir, e se entrega à prisão. Simão é preso e condenado a morte, mas devido a influência de seu pai a pena é convertida e ele é condenado a ficar 10 anos na Índia sofrendo humilhação e miséria.

Simão, ainda preso no porto, fica sabendo que seu amigo João da cruz Cruz havia sido assassinado. Mariana, sem ter mais ninguém, resolve acompanhar Simão para a Índia, na esperança de conquistar seu coração e casar-se com ele. Teresa cada vez mais triste e muito magoada começa a ter sua saúde abalada e acaba morrendo, Simão antes de seguir para a Índia fica sabendo da morte de Teresa e fica profundamente consternado e deprimido com a morte da amada. Alguns dias após a viajem, Simão morre de febre amarela. Mariana não resistindo à perda do amado se joga no mar junto com o corpo de Simão. Com a morte de Mariana, acaba a trágica história dos Albuquerque e dos Botelho.

Percebemos, nessa grande obra de Camilo Castelo Branco, o conflito entre o amor e o preconceito representado na rivalidade das famílias, algo muito comum na época em que as famílias preferiam ver seus filhos mortos, mas não casados com os “inimigos”.

Graziella F. Bonatti Nichel Acadêmica do Curso de Graduação em Letras Português e Espanhol - Licenciatura pela Universidade Federal da Fronteira Sul – Realeza - Pr.

Resenha: Zorro, o lendário herói de temperamento firme e coração romântico

ALLENDE, Isabel. Zorro, começa a lenda. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2006. 420 p.

Califórnia, ano de 1790, começa uma aventura numa época fascinante e turbulenta, com personagens cativantes e um homem de coração romântico e temperamento firme. Inicia-se essa história nas terras da Alta Califórnia diante de uma batalha, quando um jovem capitão espanhol enfrenta, numa forte luta, uma pessoa a qual não consegue identificar e acaba ferindo-a. Caindo no chão ensanguentada, Alejandro de la Vega se aproxima e tira o disfarce para decapitá-la, no entanto, percebe que se trata de uma mulher, impressionado a leva para ser socorrida. Ao observá-la, acaba se apaixonando por essa mulher conhecida como “Toypurnia”, índia xamã de vinte anos, de alma rebelde. Alejandro de la Vega se casa com ela e a traz para morar consigo. A partir dessa união, Toypurnia passa a se chamar Regina de la Vega e o militar Alejandro se torna grande fazendeiro. O casal tem um filho em 1795, chamado Diego de la Vega, nosso herói Zorro.

Diego de la Vega cresce na Califórnia, na missão de “San Gabriel”, perante a injustiça racial contra os nativos explorados. Apesar de ser um privilegiado, nosso herói mantém fortes laços com os oprimidos, contribuindo para o seu sentido apurado de justiça e identificação com os indígenas. Sua mãe é filha de um marinheiro espanhol e de uma xamã curandeira, chamada Coruja Branca. Seu irmão de leite é Bernardo, pessoa inseparável de Diego de la Vega.

De seu pai, Diego aprende as virtudes de um fidalgo, desde a esgrima até a arte de se fazer obedecer, enquanto a sua mãe e avó o iniciam nas tradições indígenas e no conhecimento da natureza e magia. Junto de Bernardo vive várias aventuras na sua meninice e cedo se dá conta das injustiças que os índios sofrem nas mãos dos europeus. Diego torna-se homem em Barcelona, na Europa, para onde o seu pai o enviou para estudar, justamente quando a Espanha, ocupada pelas tropas de Napoleão, suporta uma guerra sangrenta. Tudo lhe acontece, desde duelos de morte até apaixonar-se à primeira vista, envolve-se numa sociedade secreta, vive com uma tribo de ciganos, é sequestrado por piratas e, mais que tudo, enfrenta o homem que será o seu pior inimigo. Regressa, por fim, à Califórnia para reclamar a fazenda onde nasceu e para fazer justiça, lutando pelos indefesos. Assim, entre a América e a Europa, se forma o caráter do mais lendário e romântico de todos os heróis.

A obra “Zorro, começa a lenda”, foi escrita pela autora Isabel Allende, peruana naturalizada chilena (1942, Lima, Peru). Trabalhou incansavelmente como jornalista e escritora desde os dezessete anos. Isabel Allende já publicou dezoito livros em mais de trinta idiomas, entre eles “Cartas a Paula”, “Contos de Eva Luna”, “De amor e de sombra”, “Eva Luna”, “Filha da fortuna”, “Meu país inventado”. Além dessas obras, destaca-se “A casa dos Espíritos”, a qual ganhou reconhecimento de público e crítica e por isso Isabel Allende foi considerada uma das principais revelações da literatura latino-americana na década de 1980. Em 2006, o livro “Zorro, começa a lenda” é lançado no Brasil com a tradução de Elisa Amorim.

Muitas curiosidades sobre Diego são descobertas, como a origem do nome de sua segunda personalidade, seus planos, estratégias, suas paixões. No final, muita emoção e uma grande surpresa que Isabel Allende preparou para seus leitores. É uma obra que precisa ser apreciada por todos.

Ivan Lucas Faust, Acadêmico do Curso de Letras da Universidade Federal da Fronteira Sul, Campus Realeza.

Resenha: A fuga de um suposto crime

LISPECTOR, Clarice. A maçã no escuro. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

A autora Clarice Lispector nasceu na Ucrânia no ano de 1920, com dois meses de idade chega ao Brasil junto com seus pais e duas irmãs, mais precisamente na cidade de Recife. Autora de várias obras, descreve-se como “escritora amadora, escreve apenas quando tem vontade, e não profissionalmente porque pretende manter sua liberdade”. Seu primeiro romance foi “Perto do coração Selvagem”, o qual levou o Prêmio Graça Aranha.

O livro “A maçã no escuro” é considerada uma de suas mais importantes obras e está dividida em três capítulos: primeira parte “como se faz um homem”; segunda parte “nascimento do herói”; e a terceira parte; “a maçã no escuro”, onde ela expõe o pecado, como atos impensados e o surgimento de um outro ser, como parte fundamental da evolução do ser humano. A autora revela a angústia e o conflito interno sendo marcas de suas obras. Clarice desenvolveu em suas obras um estilo literário ímpar, com livros marcados por singularidade e inovações linguísticas.

Nessa obra, a autora descreve a história de Martim, um homem que foge de um suposto crime que cometera contra a esposa. Na fuga, ele chega até a fazenda de Vitória, uma mulher autoritária que também foge de um passado que não traz boas recordações. Martim, em meio a esse conflito de fuga, consegue se descobrir como homem, desprezando antigos valores e buscando outra forma de sobrevivência. Martim, ao chegar ao sítio, diz ser engenheiro e tenta convencer Vitória, mas ela em nenhum momento acredita, mesmo assim contrata-o para fazer os mais variados trabalhos. No sítio, há outros personagens como Ermelinda, prima de Vitória, uma viúva que se apaixona por Martim, Francisco que trabalha no sítio e a Preta cozinheira. É nesse contexto do sítio que se desenvolve a maior parte da obra. Não fugindo a seu estilo, a autora leva os personagens ás reflexões mais profundas de seus inconsciente, ficando em segundo plano o meio externo, suas obras revelam as mais íntimas aflições do indivíduo e nessa obra não foi diferente.

A narrativa em vez de julgar os personagens culpados ou inocentes faz deles aprendizes do mundo. Martim desde sua fuga tenta se livrar do pensamento do crime, e com isso busca novas formas de ver a vida e as pessoas, mas procura ser muito cauteloso com suas palavras. Para não cair em contradição com a verdade que havia contado, passa a maior parte do tempo sozinho e em buscas de respostas para aquele ato que teria cometido. No terceiro capítulo, ele descobre que sua mulher está viva, o que leva-o a uma liberdade ainda maior de seus sentimentos e agora poderia recomeçar sua história sem sentimentos de culpa.

Esse livro é o mais extenso de Clarice Lispector, com 334 páginas, também é a primeira vez que um homem é personagem principal de sua obra, segundo a autora “foi o único livro bem estruturado que escrevi, acho eu” (GOTLIB, 1995, p. 336)¹.

A autora nos leva a ir além de nossas aparências, é uma obra de suspense que faz reflexão o tempo todo com os personagens, faz com que o leitor volte para seus pensamentos mais obscuros, dá a impressão de que todos escondem algum segredo até mesmo quem está lendo, que acaba se envolvendo com o personagem, realmente vale a pena conferir essa narrativa.

Jane Aparecida Diceti, Acadêmica do Curso de Graduação em Letras Português e Espanhol - Licenciatura pela Universidade Federal da Fronteira Sul – Realeza-Pr.

¹GOLTLIB, Nádia Battela. Clarice, uma vida que se conta. São Paulo: Ática, 1995

Resenha: Lembranças de um corredor

KING, Stephen Edwin. À espera de um milagre. Rio de Janeiro: Ojetiva, 2001. 230 p.

Stephen Edwin King nasceu em Portland, no estado americano do Maine, em 21 de Setembro de 1947. Formou-se em 1970, pela University of Maine em Bachelor of Science em Inglês. Após concluída sua formação, exerceu sua função nas salas de aulas, e casou-se com a poeta e escritora Tabitha Spruce.

Em 1973 seu primeiro romance “Carrie” é publicado. O enorme sucesso que o livro obteve, possibilitou-lhe abandonar o ensino e dedicar-se somente à escrita.

King escreve suas obras principalmente no gênero de horror e sobrenatural, nos quais é consagrado devido ao grande número de obras publicadas com tais características, e com a grande repercussão de suas obras, possui o Recorde de números de obras adaptadas para o cinema e televisão.

Entre suas obras está uma magnífica história sobrenatural “The Green Mile”, traduzido como “À espera de um milagre”, antes conhecido como “O corredor da morte”, com elementos que propicia ao leitor, a vontade de não parar de ler sem chegar ao término do livro, sendo “essencial” para uma leitura com elementos misteriosos e muito agradável. “À espera de um milagre” traz ao seu leitor uma história rica em detalhes, possibilitando-lhe criar com sua imaginação fleches da história nos seus pensamentos.

O livro é um relato de Paul Edgecombe sobre a Penitenciária de Cold Mountain, ou melhor, sobre o Bloco E, o corredor por onde passam os condenados à morte, em direção à “Velha Fagulha”, que é como chamam a cadeira elétrica.

Em especial conta a história de John Coffey, um homem que impressionava por seu tamanho e sua aparente ingenuidade. Coffey está preso e condenado à morte pelo assassinato das gêmeas Detterick, uma brutalidade com duas meninas que se divertiam, dormindo na varanda de sua casa. Encontrado com as meninas mortas em seus braços, Coffey dizia: “Não pude evitar. Tentei tirar de volta, mas já era muito tarde”. A trama se desenvolve na história de Coffey, um homem misterioso, que não se recorda do seu passado, que aparecera do nada.

O mistério da trama está nos “milagres” que Coffey faz com suas mãos, algo que impressiona o carcereiro Paul, que obteve um desses “milagres”, quando tivera uma dolorosa infecção no baixo ventre, e Coffey com suas mãos milagrosas a curou. Paul tenta descobrir um pouco sobre a vida de Coffey, mas nada consegue.

Paul não consegue esquecer-se do “milagre” feito por Coffey, e isto já está interferindo na vida do carcereiro, chegando a colocar em risco seu trabalho. Pois, quando Edgecombe juntamente com seus amigos carcereiros e “cúmplices” resolvem levar Coffey para visitar Melina Moores, esposa do Diretor Hal Moores da prisão de Cold Mountain, que está muito doente, para que Coffey consiga ajuda-lá com suas mãos milagrosas, colocam suas profissões, se forem apanhados, em risco.

A história é impressionante e deve estar entre suas leituras, com seu toque de elementos sobrenaturais, King mostra a história de Coffey e do corredor da morte de maneira brilhante. Como relata o jornal, Bagnor Daily News no livro, “é bem possível que Stephen King acabe sendo o Shakespeare do final do século XX”.

Jezebel Batista Lopes Acadêmica do Curso de Graduação em Letras Português e Espanhol – Licenciatura da Universidade Federal da Fronteira Sul, Campus Realeza-PR.

Resenha: Uma história envolvente

AZEVEDO, Aluísio. O cortiço. 2.ed. São Paulo: Ciranda Cultural, 2008. 155p.


O autor do livro “O cortiço ”, Aluísio Azevedo, nasceu em São Luís do Maranhão e é considerado um dos pioneiros da literatura naturalista no Brasil. Sua obra é considerada um marco nas obras naturalistas brasileiras, por mostrar claramente a pobreza, a falta de normas e regras da sociedade da época.

Na obra, alguns personagens se destacam: Rita Baiana, Jerônimo, Piedade, Firmo, Pombinha, Leónie e a negra escrava Bertoleza que João Romão enganou dizendo que havia comprado sua liberdade de seu dono. No cortiço viviam pessoas humildes de pouca ambição, totalmente diferentes de João Romão, homem ambicioso que queria ficar rica? À custa de qualquer coisa e de qualquer maneira.

A obra traz em seu enredo a história de como se desenvolveu o cortiço, uma espécie de favela na época, que foi construído por João Romão no decorrer da sua vida com muito esforço, trabalhando dia após dia sem descanso, além de se utilizar do seu trabalho para conseguir dinheiro para construir as casas, ainda se utilizava de esperteza na sua mercearia, adicionava um pouco de água no vinho para render mais, e roubando materiais nas construções vizinhas com a ajuda de Bertoleza sua aliada e amante que o ajudava no que fosse preciso. João Romão construía pequenos cubículos e os alugava para os trabalhadores de uma pedreira que havia ali por perto, enquanto os homens trabalhavam na pedreira, as mulheres lavavam roupa para fora para ajudar nas despesas, depois de algum tempo João Romão acabou comprando parte desta pedreira. João Ramão cada vez vai possuindo mais bens, enriquecendo até que conseguiu um título de nobreza, que instigou ainda mais a sua ganância por enriquecer.

No decorrer da história surge um novo trabalhador para a pedreira, um português chamado Jerônimo, homem muito dedicado e trabalhador na sua profissão, casado e pai de uma filha, mas sua vida mudou quando começou a se envolver com Rita Baiana. Através deste contexto da história do português é possível perceber como o meio influencia as pessoas de homem trabalhador passou a ser um vagabundo.

Outra personagem que foi bastante influenciada pela convivência foi Pombinha, moça pura e ingênua, que estava noiva, mas sua mãe não a deixava casar antes que sua primeira menstruação acontecesse, com o passar do tempo quando já mulher por influência de Leónie, acaba por cair na vida e tornar-se uma prostituta.

O cortiço foi incendiado por seus rivais de uma favela vizinha, com isso João Romão reconstrói o cortiço, no entanto, um cortiço para pessoas de classe média, e não mais para os moradores que antes habitavam, em plena miséria.

Depois de receber este nobre título, João Romão marca seu casamento com Zulmira filha de Miranda um vizinho seu, porém algo o atrapalhava em seus planos: a negra, escrava fugida, sua amante Bertoleza, não sabia o que fazer com ela, então a denunciou a seu proprietário, quando o mesmo veio buscá-la, Bertoleza não vendo saída para onde fugir, comete suicídio com uma faca que estava limpando peixe e morre na frente de João Romão.

O autor durante toda a história segue sendo muito detalhista, ele detalha cada cena que vai acontecendo no desenrolar do livro de uma maneira espontânea. Um traço marcante desta literatura naturalista é o enfoque sobre a figura da mulher da época, que em algumas passagens do texto é vista como objeto sexual pelos homens. Nesta obra, o autor mostra de uma maneira muito explícita que ele não se conformava com as injustiças, e as regras de padrões que eram e são impostas para as pessoas de uma sociedade, onde as pessoas que não seguem da maneira exata essas regras são consideradas pessoas de má conduta. O autor nos mostra nesta sua forma natural de escrever sua história as linhas que segue uma sociedade, onde muitas regras são impostas, mas, no entanto poucas são seguidas, No decorrer do livro foi fácil perceber que os personagens viviam em uma total desorganização, uns não respeitavam os outros e queriam tirar proveito de cada situação que surgia.

Josymara Kozerski, acadêmica do Curso de Letras Português e Espanhol - Licenciatura,  da Universidade Federal da Fronteira Sul- UFFS, Campus Realeza.

Resenha: Crítica à organização e costumes da sociedade brasileira

VERÍSSIMO, Érico. Incidente em Antares. São Paulo: Círculo do Livro, 1975. 490 p.

Em sua obra “Incidente em Antares”, publicada em 1971, o escritor gaúcho Érico Veríssimo (autor da trilogia O tempo e o Vento, dividida em “O Continente”, “O Retrato” e “O Arquipélago”) tece uma série de críticas à organização política da sociedade e chama atenção para o fato de muitas vezes fazermos vista grossa a várias coisas erradas que acontecem em nossa volta.

Na primeira parte, é narrada a chegada de Francisco Vacariano a uma pequena vila localizada em algum ponto desconhecido do interior do Rio Grande do Sul, no início do século XX para dedicar-se à atividade da criação de gado. A cada ano que passa, Vacariano vai acumulando riqueza e se apoderando cada vez mais do lugarejo, transformando-se na figura de “poderoso chefão” do local.

Porém, a hegemonia de Vacariano é diminuída quando chega a família Campolargo. Tão rica quanto os pioneiros, a família Campolargo também se sente confortável na posição de dona da vila. Ambos os patriarcas dos clãs nutrem antipatia mútua um pelo outro logo no primeiro encontro. O ódio aumenta ainda mais quando o patriarca dos Campolargo, Anacleto, usa de sua influência política para elevar a pequena vila à condição de cidade. Durante várias passagens do livro, confrontos sangrentos são travados, sempre com a morte de inúmeros membros das famílias e seus correligionários. Aqui é possível analisarmos a busca pelo poder econômico e político dentro da cidade. A família que conseguisse arrebanhar mais simpatizantes, enriquecer e ampliar os seus domínios territoriais, carregaria o posto de líder suprema de Antares.

Tais embates ainda são comuns dentro da sociedade atual. Para isso, basta observarmos as rixas políticas que assistimos até os dias de hoje no horário eleitoral: para conquistar o poder, vale tudo.

Na obra, ainda, é possível analisarmos a vida do povo. Deixando um pouco de lado a briga entre os chefões da cidade, tem-se pessoas pobres, que são meros figurantes das brigas protagonizadas pelas duas famílias. Veríssimo entra no mérito de descrever a história de algumas destas pessoas, como a de João Paz, que, por ideologia política, é morto pela polícia depois de muita tortura. Além dele, a obra narra a vida de outras pessoas que têm uma vida miserável, que são humilhadas pelos poderosos. Aqui também é possível traçarmos um paralelo com a atualidade: na vida real, enquanto os líderes políticos apenas se preocupam em angariar mais eleitores, o povo não tem à sua disposição nem o básico para a sobrevivência: educação e saúde de qualidade.

Percorrendo mais algumas páginas da obra de Veríssimo, chegamos ao principal momento da obra. O ano é 1963. Sete defuntos levantam de seus túmulos e começam a apontar as coisas erradas que acontecem na cidade: a violência cometida pela polícia nos inocentes (a prática foi extinta com o tempo?), a pederastia feita pelo diretor da escola, a corrupção na administração pública, a cobiça, a mentira, a traição... Fazem parte da comitiva de além túmulo, a matriarca da família Campo Largo, Quitéria, o frustrado pianista Maestro Menandro, a prostituta Erotildes, o subversivo João Paz, o bêbado Pudim de Cachaça, o barbeiro anarco-sindicalista Barcelona e o corrupto advogado, que, depois de morto tenta se regenerar, Cícero Branco.

Enquanto não são enterrados decentemente, porque os coveiros da cidade estavam em greve, descarregam todas as coisas erradas que acontecem na sociedade. A pergunta que não cala: por que, enquanto vivos, os defuntos não fizeram o mesmo? Parto do seguinte ponto de vista: como estão mortos, se consideram livres das pressões sociais e, assim, podem, tranquilamente, passar em revista o comportamento de seus parentes e amigos, lançando um olhar crítico sobre toda a sociedade.

Para finalizar a obra, Veríssimo tem a sagacidade de transcrever aquilo que acontece exatamente na realidade. Mesmo com todas as acusações, injustiças e violências acusadas pela “turma do além”, ninguém é condenado e tudo volta a ser como era antes. Os órgãos “competentes” tratam de criar uma “Operação Borracha”, liderada pelos próprios indivíduos que sofreram acusações por parte dos defuntos, com o objetivo de fazer a população esquecer da visita indesejada. No final, tudo acabou em festa e a maioria das pessoas fez questão de “apagar” da memória os dias em que tiveram a companhia dos mortos.

Saindo da ficção, acredito que a “Operação Borracha” também acontece na nossa sociedade, embora de maneira “maquiada”, como por exemplo, quando o governo trata de encobrir certos acontecimentos, direcionando a atenção das pessoas para outros fatos. Como se vê, os problemas apontados por Veríssimo através de “Incidente em Antares” são praticamente os mesmos da atualidade.

Lucas Sidnei Carniel – Acadêmico do Curso de Letras da Universidade Federal da Fronteira Sul, Campus Realeza – PR

Resenha: Histórias de Pianos

CARHART, Thaddeus. A loja de pianos de Rive Gauche. 1. ed. Rio de Janeiro: Best Bolso, 2009. 289 p.

Best-seller de Thaddeus Carhart e tradução de Maria Alice Máximo, “A loja de pianos da Rive Gauche” é um livro pra quem é apaixonado por música e principalmente pianos. Retrata a história do próprio autor, um americano que vive em Paris, tentando se adaptar aos costumes da cidade.

Por entre as ruas de seu bairro, há uma que lhe chama a atenção, onde há uma loja de pianos. Ao passar por ali todos os dias para levar seus filhos à escola, o escritor freelance fica curioso para saber o que se encontra lá dentro.

Cahart faz amizade com Luc, o restaurador da loja, e revive sua paixão de infância pela música, nos levando à suas novas aventuras musicais. Compra um piano e passa a frequentar a loja, conhecendo todos os tipos de pianos que passam por ali e aprende com Luc sobre eles, reconhecendo se foram muito tocados ou não, se o ambiente tinha a umidade correta, e imaginando quem poderia tê-lo tocado, como acontecia com os pianos que chegavam de séculos atrás, como uma obra de arte feita em Viena, no século XVIII, que “possivelmente” poderia ter sido tocado por nada mais, nada menos, que Ludwig van Beethoven, por ser de Viena, feito por um fabricante conceituado e ser o que era de mais moderno em piano de cauda. O adulto fascinado por todo esse mundo volta a fazer aulas após 20 anos afastado do instrumento.

O livro faz referência a importância do piano para os franceses, na sua cultura, todas as suas variações e complexidades. Luc nos ensina sobre as marcas mais famosas, os melhores fabricantes, entre eles Fazioli, uns dos melhores atualmente, a época de origem até o auge das melhores fabricações, além de termos uma aula sobre o mecanismo do instrumento. Um romance sobre amizade e redescoberta, apontando a qualidade mais importante de um piano: o som produzido ao ser tocado,

T. E. Cahart vive em Paris como escritor freelance e consultor de projetos culturais. “A loja de pianos da Rive Gauche” ganhou inúmeros elogios da crítica especializada, sendo eleito em 2001 um dos melhores livros do ano pelo The Washington Post Book World. O jornal do Reino Unido, The Observer, comenta exatamente o que os leitores amantes de piano poderiam concluir do livro, que "se o objetivo foi inspirar nos leitores uma renovada paixão pela música, ele foi admiravelmente bem sucedido."

Maiara C. Marafon, acadêmica do Curso de Letras da UFFS – Universidade Federal da Fronteira Sul - Campus Realeza – PR

Resenha: Fingindo diante da realidade

AZEVEDO, Aluísio Tancredo Gonçalves de. O mulato. 13ª ed. São Paulo. Editora Ática S.A. 1996.

Aluísio Azevedo nasceu no Maranhão em 1857. Desde muito jovem demonstrou interesse e vocação para as letras, tinha paixão por leitura. Aos 19 anos, saiu de sua terra natal e foi para o Rio de Janeiro, lá trabalhou em vários jornais como caricaturista, em 1879 retornou ao Maranhão. Entre 1880 e 1881 militou contra o clero e os jornais católicos, esta militância influenciou na publicação da obra “O MULATO”. O livro foi publicado em 1881. Azevedo introduziu através de sua obra o Naturalismo na Literatura Brasileira e fez uma crítica anticlerical e antirracista da sociedade Maranhense, com isso, despertou a irá nos indivíduos de sua cidade natal e teve que retirar-se dela.

O romance “O MULATO” nos relata a história de um jovem chamado Raimundo, filho do fazendeiro José Pedro da Silva e de sua escrava Domingas (mulher negra). Raimundo saiu de São Luís do Maranhão quando criança, sem saber de sua verdadeira origem e foi para Lisboa estudar, depois de anos na Europa, tornou-se um bom advogado e quis voltar ao Brasil para desvendar suas origens.

Quando a mãe de Raimundo morreu, seu pai o levou a morar com o tio. Voltando para casa, encontra sua esposa Quitéria e o padre Diogo em pleno adultério. Confuso, ele mata a esposa e tem o padre como testemunha. Após o acontecido, José abandona a fazenda e vai morar na casa de seu irmão Manuel e adoece. Ao retornar à fazenda, foi tocaiado e morto, por ordem do padre Diogo. Por muito tempo as pessoas tiveram uma visão de que a figura sacerdotal é uma figura sem pecados, não comete erros e só pensa em fazer o bem aos demais. Mas hoje, sabe-se que os sacerdotes ou religiosos são pessoas iguais a nós, que erram, pecam como qualquer outra. Na época que este romance foi escrito, a maior parte da sociedade ainda tinha a visão de que os religiosos eram “santos”, não faziam maldades, não pecavam. No entanto, o autor deste livro fez uma crítica colocando exemplos em sua obra de alguns erros cometidos pelos sacerdotes, como o do padre Diogo.

Ao retornar para o Brasil, Raimundo passa um ano no Rio de Janeiro, depois vai para São Luís. Ao chegar é bem recebido pela família do tio Manuel. Com sua pele morena e com seus olhos azuis, desperta desejo e atenções em sua prima Ana Rosa, a paixão entre primos é correspondida. Porém, esse amor terá que lutar contra o preconceito e as proibições familiares. Sua avó Maria Bárbara, mulher racista, tinha conhecimento sobre as origens de Raimundo e não queria que a neta se casasse com um rapaz de origem negra. Neste romance, percebe-se muito bem o racismo contra pessoas negras. A avó de Ana não era contra o namoro por motivo deles serem primos, mas por ele ser filho de uma escrava negra. Esses tipos de preconceitos estão em nossa sociedade até o presente momento, pois não julgamos as pessoas pela capacidade que possuem, mas por sua diferença, pela sua cor, pelo cargo que ocupam na mesma.

Obcecado por desvendar suas origens, Raimundo insiste em visitar a fazenda onde nascera. Durante o percurso, ele descobre as primeiras informações sobre o passado trágico de seus pais. Aproveitando o momento a sós com o tio pede a mão de Ana em casamento, depois de várias recusas ele acaba descobrindo que a mesma se deve a sua origem negra. Ao retornarem para São Luís, muda-se da casa do tio e decide voltar para o Rio de Janeiro. Pouco antes de viajar, manda uma carta para Ana confessando seu amor e este amor pela prima o impede de partir. Os dois se encontram (mesmo sendo proibidos) e ela acaba engravidando. Naquela época, ou até mesmo nos dias atuais, se uma moça chegasse engravidar sem ser casada ficava mal falada por toda a região e ela estava prestes a “cair na boca” das fofoqueiras de plantão.

Contra tudo e todos, eles armam um plano de fuga. No entanto, a carta principal foi interceptada por um cúmplice do padre Diogo, o padre usava as confissões de Ana para interceptar as cartas do casal e a concretização da fuga. No momento exato da fuga, o casal foi surpreendido e armou-se o maior escândalo, mas o padre finge-se de protetor deles. Raimundo volta para casa e, ao abrir a porta é atingido nas costas por um tiro disparado pelo caixeiro Luís. Ela, atordoada, aborta o filho. Passaram-se seis anos e Ana estava casada com o senhor Dias (o assassino de seu grande amor). Tiveram três filhos e, aparentavam formar um casal feliz. Ana demonstrava ser boa mãe e esposa, sempre preocupada com os filhos e com o esposo Dias. Atualmente ainda existem pessoas que se fazem de amigos e confidentes para se beneficiarem, como aconteceu no romance. Se aproveitando de informações para proveito próprio. Fazendo do outro a escada para alcançar os objetivos desejados, sem pensar se vai ferir ou destruir o desejo alheio.

Marta Richciki Camargo, Acadêmica do Curso de Letras Português e Espanhol da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), Campus Realeza.

Resenha: Premiada “Construção”

HOLLANDA, Francisco Buarque de. Leite derramando. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. 195 p.


É sabido que o cantor e compositor Francisco Buarque de Hollanda já tem seu nome gravado na história da MPB. Nascido no Rio de Janeiro em 1944, iniciou sua carreira em 1960. Em 1966, destacou-se com a canção A Banda, com a qual venceu o Festival de Música Popular Brasileira. A partir disso, construiu uma carreira repleta de sucessos que foram tanto exaltados pela crítica quanto censurados pela ditadura militar brasileira.

Além de seu trabalho na música (inclusive musicando diversas peças), Chico Buarque lançou-se escritor em 1966. Desde crônicas, novelas e até poemas para crianças, seu primeiro romance, Estorvo, foi lançado em 1991 seguido de Benjamim em 1995. Em 2004 lançou o romance Budapeste, que rendeu a Chico o prêmio literário mais importante do Brasil, o Jabuti de melhor ficção do ano.

Ao término da leitura de Leite Derramado (2009), não deixo de comemorar seu antecessor. Porém, é inevitável concluir que em seu mais recente trabalho, Chico Buarque deitou e rolou sobre o “leite derramado”. As provas disso são os dois prêmios conquistados pelo autor nesse ano: Prêmio Jabuti e Prêmio Portugal Telecom de Literatura.

A obra é uma narrativa em primeira pessoa. Um ancião de cem anos conta incansavelmente sua história, a de sua família e seus ancestrais, o que remete o leitor a uma breve, mas ampla, viagem que termina há dois séculos atrás. Na verdade, é prepotência afirmar quando ela termina, pois a memória cansada e embaralhada do narrador não segue uma cronologia. E foi a partir desse panorama estrutural do livro que pude visualizar uma ponte entre o compositor e o escritor.

Eulálio está num leito de hospital onde possivelmente passará o resto de seus dias, já que, segundo o próprio, sua filha Maria Eulália deu fim nos bens da tradicional família Assumpção. O personagem conta sua história para quem quiser ouvir, ora para uma enfermeira, ora para a própria filha e por que não para ele mesmo, já que a narrativa deixa uma forte impressão de que ao ativar as lembranças de uma longa vida, no final dela lembrar é quase um acalanto, não só para Eulálio mas para quem está lendo.

Dentre ligações entre a história de sua família e do país, o personagem vislumbra um Rio de Janeiro de um Corcovado ainda sem Cristo Redentor e uma previsão pessimista do que a sociedade se transformaria e que é, nos tempos de hoje. Além disso, marca insistentemente seu amor doentio por Matilde, a menina de pele “escurinha” que conheceu na missa em memória a seu pai e que sua mãe nunca deixou de repudiar. Apesar de notar uma atitude visivelmente machista e preconceituosa do narrador ao lembrar dos trejeitos e costumes da esposa, senti nele um certo rancor por Matilde, que desaparecera quando Eulalinha ainda era um bebê.

Essa relação de amor e ódio, a possessividade e o ciúme vivenciados e ainda latentes no personagem, fizeram-me vislumbrar um Machado de Assis de um Dom Casmurro moderno, mas de uma Matilde contrastante à doçura dissimulada de Capitu.

A escrita de Chico Buarque leva alguns clichês, como expressões em francês para indicar a pompa e a classe de que trata a estirpe do personagem. Além disso, a saga de uma família que viveu anos de glória e com o passar do tempo se esvai como o leite que se derrama sobre o fogo não é nenhuma novidade na literatura – vide Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez. Outro comparativo que embaça o brilho da obra é a insistência do autor em criar personagens que nos remetem à ideia de fracasso pessoal, como aconteceu com José Costa, narrador também em primeira pessoa, em Budapeste.

Entretanto, é válido afirmar que o autor marca mais uma vez seu estilo, só que agora nas páginas dos livros. Um exemplo claro é encontrado logo no início, onde Eulálio, em explícita declaração de amor a uma enfermeira, tende a transformá-la numa típica Mulher de Atenas (referência à canção escrita por Chico Buarque e Augusto Boal em 1976 para a peça Mulheres de Atenas): “[…] Na fazenda você tratará de mim e de mais ninguém, de maneira que ficarei completamente bom” (p. 6).

Essa postura se conflita com a de dezoito capítulos adiante, dirigida à mesma enfermeira (ou será outra?), ao mesmo tempo em que confunde o leitor que não identifica se Eulálio fala de amor ou apenas gratidão por essa figura, sua companhia e seu conforto ao fim da vida: “Se soubesse como gosto das suas cheganças, você chegaria correndo todo dia. É a única mulher que ainda me estima, se você me faltar morro de inanição. Sem você me enterrariam como indigente, meu passado se apagaria, ninguém registraria a minha saga” (p. 119).

A poesia embutida em meio a lembranças desconexas de uma pessoa que viveu muito e intensamente uma vida de honra e tragédias, tanto morais quanto afetivas, faz da leitura do Leite Derramado uma gangorra de sensações. O autor confunde a nostalgia do narrador e nos faz confusos sem nos confundir. É como olhar o líquido prestes a transbordar e nada poder fazer. Mas ao final, quando a sujeira está feita, ver que valeu a pena acompanhar o processo do inevitável.

Patrícia dos Santos, acadêmica do curso de Graduação em Letras Português/Espanhol – Licenciatura, da Universidade Federal da Fronteira Sul – Campus Realeza.

Resenha: Duas mulheres e um destino

HOSSEINI, Khaled. A cidade do sol. 1. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira S.A, 2007. 364p.

O escritor e médico afegão Khaled Hosseini nasceu em Cabul, Afeganistão, e se mudou para os Estados Unidos em 1980, onde mora com a mulher e dois filhos. Seu primeiro romance, “O caçador de pipas” tornou-se um best seller, sucesso de público e de crítica. Khaled também é autor do best-seller “A cidade do sol”, que já é um grande sucesso e com certeza encanta a todos com seu enredo comovente.

A obra “A cidade do sol” relata a história de duas mulheres: Mariam e Laila. Mariam morava com sua mãe, que era uma mulher triste, amargurada e revoltada com seu destino de “mãe solteira”. Elas viviam numa espécie de cabana num lugar afastado da cidade, ela tinha pai e se chamava Jalil, mas Jalil não a reconhecia como filha perante a sociedade, pois Mariam era fruto de um relacionamento vergonhoso entre um homem poderoso e a criada de sua casa. Apesar de não reconhecê-la como filha, ele a visitava e levava presentes uma vez por semana, o que deixava Mariam empolgada a semana toda, esperando a chegada de seu pai. No dia de seu aniversário, pediu que seu pai a levasse ao cinema assistir um filme daqueles que ele a contava quando vinha visitá-la, pois ele era o dono do cinema, mesmo sabendo que não iria levá-la ele prometeu assim mesmo. Mariam esperou e ele não veio, contrariou sua mãe e foi até a casa de seu pai onde não foi bem recebida, o pai não quis vê-la. Então, aos 15 anos, ela começa a entender o significado das palavras de sua mãe que a avisava sempre para não se iludir com as conversas de seu pai. Ela passa o dia todo na frente da casa de seu pai esperando em vão que ele apareça. E quando resolve voltar para casa, encontra sua mãe morta, de desgosto: Sua mãe se suicidou.

A menina órfã vai para a casa de seu pai onde não é bem vinda e fica poucos dias lá até que suas madrastas e seu pai lhe arrumam um marido chamado Rashid, viúvo, 20 anos mais velho, contra sua vontade a leva para morar em Cabul, no Afeganistão onde residia. Dentro de um contexto histórico de guerras religiosas, num país onde o islamismo é a religião predominante e as mulheres não tem seus direitos civis garantidos na constituição, Mariam vive uma vida de escravidão e os únicos momentos de sua vida de casada que foi bem tratada pelo marido foi quando engravidou, mas logo perdeu o bebê e o inferno recomeçou, ela ficou estéril e por isso era muito mal tratada por seu marido.

Na mesma rua havia uma menina chamada Laila, filha de pai professor que a ensinava que ela devia lutar por seus ideais, ela era uma menina estudiosa e inteligente e tinha um namorado chamado Tariq. Mas, por causa da guerra, ele teve que sair da cidade, juntamente com seus pais que também resolvem fugir e na fuga são atingidos por um míssil e todos de sua família morrem. Laila com 14 anos fica órfã, pois sua casa é atingida por um míssel e somente ela sobrevive. Laila é amparada por Mariam e Rashid que se aproveita da situação e a pede em casamento. Ela sem escolha, pois estava grávida de seu grande amor Tariq, não lhe restava alternativa, a não ser casar com ele. Naquele país um homem ter várias esposas é comum, mas Mariam não gosta da ideia. As duas são obrigadas a conviver e com o passar do tempo tornam-se grandes amigas, se unem para criar e educar Aziza, filha de Laila, que é rejeitada por Rashid pelo fato de ser mulher e quando ela cresce um pouco ele a manda para o orfanato.

O sofrimento destas duas mulheres faz com que o leitor entre na história, sonhe, lute e torça para que elas tenham um final feliz, mas a cada capítulo que passa a vida delas fica pior. Uma defende a outra e são espancadas violentamente, Laila nunca baixa a cabeça e enche Mariam de esperanças com seus ideais de liberdade, elas tentam fugir, mas são apanhadas porque em Cabul uma mulher não pode sair sozinha na rua sem a companhia de um homem, lá os costumes são muito rígidos com as mulheres.

Laila engravida de seu segundo filho que é filho de Rashid, esse sim é respeitado por ser homem e Rashid só tem olhos para Laila que lhe deu o filho tão esperado, maltratando ainda mais Mariam e isso as une cada vez mais, pois Laila a defende sempre.

Neste cenário de guerra e desolação, a História vai acontecendo e cada capítulo nos dando exemplos de amor e amizade entre duas mulheres, cujo único anseio é ser feliz.

O título original do livro, em inglês, se chama “A Thousand Splendid Suns”, que em Português fica algo como “Os Mil Sóis Esplêndidos”, que é uma parte do poema “Cabul”, do poeta persa Saeb-e-Tabrizi. A versão em Português chama mais a atenção do leitor, porém o original em inglês tem mais a ver com a história.

“Todas as ruas de Cabul são atraentes para os olhos
Através dos bazares, caravas do Egito passam
Não se podem contar as luas que brilham por seus telhados
Nem os mil sóis esplêndidos que se escondem por trás de seus muros”

Sílvia Letícia Azambuja Pano. Acadêmica do Curso de Letras. Universidade Federal da Fronteira Sul. Campus Realeza.

Resenha: A vida de Zezé

VASCONCELOS, José Mauro. Meu pé de laranja lima. 2ª. Ed. Melhoramentos, 1975. 124 p.

José Mauro de Vasconcelos, nordestino de família muito humilde e pobre, logo mudaram-se para o Rio de Janeiro. Sua iniciação literária foi com o romance “Banana Brava”, de 1942, mas somente com o livro “Meu pé de laranja lima”, que foi um grande sucesso, para não dizer o maior sucesso de sua carreira, até uma novela foi baseada no livro. O enredo desse livro traz um gostoso mistério entre o mundo real e o imaginário.

José Mauro de Vasconcelos retratou no livro “Meu pé de laranja lima” relatos e abusos vividos por ele mesmo. Uma história particularmente linda e emocionante, trazendo como enredo a vida de um menino muito travesso de cinco anos chamado Zezé, de família humilde e numerosa, seu pai Paulo, a mãe e mais três irmãos: Jandira, Totoca, Luís e Glória (Godoia), quem cuidava de Luís era Zezé.

O pai Paulo, desempregado, com uma situação financeira nada favorável, fazia com que sua mãe trabalhasse muito para sustentar a casa, como as coisas já eram muito complicaS, acabaram se mudando para uma casa menor, o que foi muito triste para Zezé. Mas é nesta casa que nasce uma linda e curiosa amizade entre Zezé e Minguinho ou Xuxuruca (pé de laranja lima). A primeira vista, Minguinho era tão pequeno, mas foi crescendo e Zezé se tornado cada vez mais amigo e confidente de Minguinho, fizeram muitas viagens, brincavam e conversavam muito.

Por ser um menino muito travesso e respondão, apanhava muito do pai e de sua irmã mais velha Jandira, que dizia que Zezé era um “diabinho” (artes são normais para uma criança de cinco anos), só quem não tinha coragem de repreender e bater em Zezé era sua irmã Godoia, um apelido carinhoso dado pelo Zezé. Godoia tinha pena por Zezé ser tão pequeno e sofrer tanto nas mãos de Jandira.

Zezé era um menino muito inteligente e também adorava aprender palavras novas com seu tio Edmundo. Começou frequentar a escola, sua professora Célia Paím tinha uma adoração por Zezé, ele levava flores (roubadas do jardim de Serginho) todos os dias para a professora, além disso, na escola era um menino muito querido e comportado, bem ao contrário do que era em casa.

Na cidade, havia um senhor português chamado Manuel Valandarez que tinha um carro muito lindo. Zezé, numa de suas traquinagens, resolveu pegar uma carona do lado de fora do carro, e seu Manuel apavorado com a arte, lhe deu uma surra tão grande, que Zezé jurou vingança. O que acabou não acontecendo.

Certo dia, Zezé pisou num caco de vidro e fez um corte profundo, Manuel vendo que o menino mancava, resolveu perguntar o que tinha ocorrido. Zezé com medo não queria falar, mas com insistência falou e Manuel o levou para o hospital, e Zezé acabou levando alguns pontos no pé. Neste episódio, acabam se tornando amigos e Zezé deixando um pouco de lado o pé de laranja lima.

Manuel e Zezé sempre passeavam juntos, iam pescar tomar sorvete, até que um dia aconteceu um desastre. Agora deixo a dica de ler esse incrível livro, só lendo para saber o que acontece com Zezé, Minguinho e Manuel.

Taíse Moraes dos Santos. Acadêmica do Curso de Letras da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), Campus de Realeza.

Resenha: A inocência de um menino

BOYNE, John. O menino do pijama listrado. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. 186 p.

A leitura de “O menino do pijama listrado”, de John Boyne, é muito prazerosa, a linguagem é clara, seu tema é forte, mas foi contada de maneira leve, através da inocência do menino Bruno.

Esta obra trata da 2ª Guerra Mundial e o holocausto, retratado por um menino chamado Bruno, de apenas 9 anos de idade, filho de um comandante, Oficial do exército do Líder Nazista, o Ditador Adolf Hitler.

Bruno é um menino que mora com a família (seu pai, sua mãe e sua irmã) e sabe muito pouco da vida além do que acontece fora de sua casa e escola. Ele se vê forçado a abandonar as pressas sua confortável vida em Berlim, após o Pai ser designado para comandar um campo de guerra que envolve seu país, a Alemanha, com parte da Europa. Muda-se para um lugar desolado, onde nada o deixa feliz, o lugar é uma casa vizinha a um campo de concentração.

Bruno vê seus dias passarem através da janela, onde observa uma grande cerca que separa pessoas de seu convívio e todas andam uniformizadas com um pijama listrado, não entende bem as diferenças que separam os dois universos, e é por acaso que, em uma brincadeira de exploração das redondezas, ele faz amizade com um menino do outro lado da cerca, que sempre veste um curioso pijama listrado, como todos os outros daquele lado da cerca. Shmuel, um menino judeu preso no campo de concentração, tem a mesma idade de Bruno e também nascera no mesmo dia que ele, tornam-se amigos e com o passar dos dias conversam sobre as razões que os separam, e entendem que a amizade é proibida, mas não compreendem o porquê.

Seu pai recebe em casa oficiais nazistas para assistir a um filme montado sobre os campos de concentração, em que o que é mostrado são crianças felizes, mas o campo de concentração não tem nada de belo,

Sua mãe descobre que uma fumaça preta que vêm do campo de concentração se trata de extermínio de judeus e começa a ficar angustiada com a situação, depois de saber disso fica mais angustiada quando percebe que a filha está abandonando as bonecas, e tomando uma postura diferente da que gostaria. Vê o marido cada vez mais envolvido em algo que ela não gosta, e quer voltar para Berlim, e toma como surpresa quando ouve Bruno falar que não quer voltar.

Então Bruno vai até Shmuel e conta que está indo embora no dia seguinte, vê que o amigo está triste, porque seu pai foi levado para trabalhar com alguns homens e não retornou, mas Bruno se prontifica a ajudá-lo, combinam que no dia seguinte bem cedinho ele iria até lá para procurarem juntos pelo pai do amigo, mas para isso precisa de um pijama também.

No outro dia bem cedo, Bruno troca de roupa e passa para o outro lado da cerca. O desfecho é chocante. A pureza e inocência de Bruno enfatizam ainda mais o horror do nazismo.

“O menino de pijama listrado” revela o contraste entre a inocência de uma criança e a prepotência de um mundo dominado pela guerra. Questões a respeito dos relacionamentos humanos são abordadas no livro, que também mostra o quanto as diferenças podem ser superadas em função da amizade.

Acadêmica: Vanessa Boeira da Silveira Curso: Letras UFFS/ Campus Realeza-PR

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

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