CURY, Augusto. De gênio e louco todo mundo tem um pouco. São Paulo: Academia de Inteligência, 2009. 206 p.
Após o estrondoso sucesso do livro “O vendedor de sonhos” de Augusto Cury, livro este que vendeu milhões de exemplares no Brasil e no mundo, foi lançado em outubro de 2009 pela Editora Academia de Inteligência o romance “De gênio e louco todo mundo tem um pouco”. Nesta obra, Cury revela as características íntimas de dois dos personagens do seu romance “O vendedor de Sonhos”, Boquinha e Prefeito. Estes são marcados pelo escândalo e pela irrequietude e, por conta disso, metem-se em muitas confusões tornando a narração cômica e agradável, além de revelar aspectos sociais e humanitários por conta das ações desses dois personagens centrais.
O escritor da obra, Dr. Augusto Jorge Cury, nascido no dia 2 de outubro de 1958, na cidade de Colina - São Paulo, é psiquiatra, cientista, escritor e fundador da Academia de Inteligência, instituto esse que promove o treinamento de profissionais das áreas da educação e psicologia. Ao longo de sua carreira como escritor, publicou vários romances como “Superando o Cárcere da Emoção”, em dezembro de 2006, “O Código da Inteligência”, em maio de 2008, “O Vendedor de Sonhos e a Revolução dos Anônimos” , em janeiro de 2009, dentre outros. Cury conquistou seu espaço no mundo literário com um estilo único, vendendo mais de 10 milhões de exemplares no Brasil e ganhando publicações em mais de 50 países.
Considerado um escritor de livros do gênero “auto-ajuda”, Cury carrega seus personagens com uma bagagem de características que nos fazem questionar as condições de vida, a humanidade das pessoas, os métodos para chegar à solução dos problemas psicológicos e também proporcionar, através de auto-análises, o desenvolvimento do ser pensante. Essas características diferenciam o trabalho de Cury das tradicionais publicações do gênero auto-ajuda, em que predominam clichês como as “infalíveis receitas da felicidade” interligadas com o jargão “pegue, use e mude sua vida”.
Augusto Cury não deixa por menos em sua obra de ficção “De gênio e louco todo mundo tem um pouco”, pois ao apresentar a vida de seus dois personagens, aborda duas questões intrínsecas à sociedade contemporânea. Na primeira mostra a vida de Bartolomeu, vulgo Boquinha, cuja infância não fora nada invejável, seu pai era um bruto e frequentemente espancava sua mãe que, devido aos maus tratos, falecera muito jovem. Depois disso, Boquinha é sujeitado a uma série de adoções e fugas, mas foi no período em que esteve em um orfanato que ele desenvolveu um pensamento crítico em relação ao que se passava ao seu redor. Na segunda, ele apresenta outro personagem, Barnabé, apelidado de “Prefeito” devido ao hábito de realizar discursos de cunho político por onde passava, o qual não teve uma vida muito diferente da que levou Boquinha com exceção do fato de que não chegou a conhecer seus pais.
Cury expõe Boquinha e Prefeito em meio a uma sociedade capitalista, onde ambos são obrigados a viver dependendo da boa ação dos cidadãos, já que não possuíam emprego, salário, ou qualquer outra fonte de renda. Nesse momento da narração, entra em cena mais um personagem, o Vendedor de Sonhos, o qual utiliza da manipulação e persuasão mental para gerar ânimo nas pessoas desesperadas e também para motivá-las a segui-lo em sua peregrinação “vendendo sonhos” a outras pessoas necessitadas.
Os dois personagens criados por Cury vão seguir o Mestre e descobrir que há pessoas em estado de decadência social, outras que perderam tudo o que possuíam desde bens materiais até matrimoniais, outras tomadas pela depressão devido à tensão dos problemas enfrentados no dia-a-dia, e tantos outros casos que os deixavam aturdidos. Mas nesse árduo caminho, acaba-se formando uma família, cuja alegria encontrada ambos outrora nunca puderam desfrutar.
Augusto Cury de certa forma consegue “mascarar” os personagens atrás dos conselhos e métodos utilizados no gênero auto-ajuda, fazendo com que o imperativo, implícito no personagem, chegue até o leitor e o convença a tomar uma atitude. O autor é inteligente ao explorar as condições vividas pelos personagens, e revelar, após isso, que é possível angariar um futuro de muito sucesso diante de uma situação em extrema pobreza.
Talvez seja uma utopia Cury pensar assim, mas, considerando a qualidade da produção, isso não diminui em nada o valor literário da obra, que nos apresenta um contexto e um enredo bem explorado, personagens riquíssimos em conteúdo e outros. Mas a essência está no conjunto, ou seja, no poder que a obra tem em influenciar o seu leitor. Esse método Cury domina com facilidade, nota-se semelhanças entre sua obra e os pensamentos do inglês Benjamin Franklin, figura histórica mundialmente conhecida na área da auto-ajuda, que pregava a sobriedade, a justiça, a moderação, a tranquilidade e a humildade, defendidos também por Cury, visando um alcance geral da sociedade em procurar o seu trabalho, e não apenas uma classe separada tida como desesperada.
Alceni E. Langner. Acadêmico do Curso de Letras Português e Espanhol - Licenciatura da Universidade Federal da Fronteira Sul - UFFS, Campus Realeza - PR.
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