HOLLANDA, Francisco Buarque de. Leite derramando. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. 195 p.
É sabido que o cantor e compositor Francisco Buarque de Hollanda já tem seu nome gravado na história da MPB. Nascido no Rio de Janeiro em 1944, iniciou sua carreira em 1960. Em 1966, destacou-se com a canção A Banda, com a qual venceu o Festival de Música Popular Brasileira. A partir disso, construiu uma carreira repleta de sucessos que foram tanto exaltados pela crítica quanto censurados pela ditadura militar brasileira.
Além de seu trabalho na música (inclusive musicando diversas peças), Chico Buarque lançou-se escritor em 1966. Desde crônicas, novelas e até poemas para crianças, seu primeiro romance, Estorvo, foi lançado em 1991 seguido de Benjamim em 1995. Em 2004 lançou o romance Budapeste, que rendeu a Chico o prêmio literário mais importante do Brasil, o Jabuti de melhor ficção do ano.
Ao término da leitura de Leite Derramado (2009), não deixo de comemorar seu antecessor. Porém, é inevitável concluir que em seu mais recente trabalho, Chico Buarque deitou e rolou sobre o “leite derramado”. As provas disso são os dois prêmios conquistados pelo autor nesse ano: Prêmio Jabuti e Prêmio Portugal Telecom de Literatura.
A obra é uma narrativa em primeira pessoa. Um ancião de cem anos conta incansavelmente sua história, a de sua família e seus ancestrais, o que remete o leitor a uma breve, mas ampla, viagem que termina há dois séculos atrás. Na verdade, é prepotência afirmar quando ela termina, pois a memória cansada e embaralhada do narrador não segue uma cronologia. E foi a partir desse panorama estrutural do livro que pude visualizar uma ponte entre o compositor e o escritor.
Eulálio está num leito de hospital onde possivelmente passará o resto de seus dias, já que, segundo o próprio, sua filha Maria Eulália deu fim nos bens da tradicional família Assumpção. O personagem conta sua história para quem quiser ouvir, ora para uma enfermeira, ora para a própria filha e por que não para ele mesmo, já que a narrativa deixa uma forte impressão de que ao ativar as lembranças de uma longa vida, no final dela lembrar é quase um acalanto, não só para Eulálio mas para quem está lendo.
Dentre ligações entre a história de sua família e do país, o personagem vislumbra um Rio de Janeiro de um Corcovado ainda sem Cristo Redentor e uma previsão pessimista do que a sociedade se transformaria e que é, nos tempos de hoje. Além disso, marca insistentemente seu amor doentio por Matilde, a menina de pele “escurinha” que conheceu na missa em memória a seu pai e que sua mãe nunca deixou de repudiar. Apesar de notar uma atitude visivelmente machista e preconceituosa do narrador ao lembrar dos trejeitos e costumes da esposa, senti nele um certo rancor por Matilde, que desaparecera quando Eulalinha ainda era um bebê.
Essa relação de amor e ódio, a possessividade e o ciúme vivenciados e ainda latentes no personagem, fizeram-me vislumbrar um Machado de Assis de um Dom Casmurro moderno, mas de uma Matilde contrastante à doçura dissimulada de Capitu.
A escrita de Chico Buarque leva alguns clichês, como expressões em francês para indicar a pompa e a classe de que trata a estirpe do personagem. Além disso, a saga de uma família que viveu anos de glória e com o passar do tempo se esvai como o leite que se derrama sobre o fogo não é nenhuma novidade na literatura – vide Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez. Outro comparativo que embaça o brilho da obra é a insistência do autor em criar personagens que nos remetem à ideia de fracasso pessoal, como aconteceu com José Costa, narrador também em primeira pessoa, em Budapeste.
Entretanto, é válido afirmar que o autor marca mais uma vez seu estilo, só que agora nas páginas dos livros. Um exemplo claro é encontrado logo no início, onde Eulálio, em explícita declaração de amor a uma enfermeira, tende a transformá-la numa típica Mulher de Atenas (referência à canção escrita por Chico Buarque e Augusto Boal em 1976 para a peça Mulheres de Atenas): “[…] Na fazenda você tratará de mim e de mais ninguém, de maneira que ficarei completamente bom” (p. 6).
Essa postura se conflita com a de dezoito capítulos adiante, dirigida à mesma enfermeira (ou será outra?), ao mesmo tempo em que confunde o leitor que não identifica se Eulálio fala de amor ou apenas gratidão por essa figura, sua companhia e seu conforto ao fim da vida: “Se soubesse como gosto das suas cheganças, você chegaria correndo todo dia. É a única mulher que ainda me estima, se você me faltar morro de inanição. Sem você me enterrariam como indigente, meu passado se apagaria, ninguém registraria a minha saga” (p. 119).
A poesia embutida em meio a lembranças desconexas de uma pessoa que viveu muito e intensamente uma vida de honra e tragédias, tanto morais quanto afetivas, faz da leitura do Leite Derramado uma gangorra de sensações. O autor confunde a nostalgia do narrador e nos faz confusos sem nos confundir. É como olhar o líquido prestes a transbordar e nada poder fazer. Mas ao final, quando a sujeira está feita, ver que valeu a pena acompanhar o processo do inevitável.
Patrícia dos Santos, acadêmica do curso de Graduação em Letras Português/Espanhol – Licenciatura, da Universidade Federal da Fronteira Sul – Campus Realeza.

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