segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Resenha: A fuga de um suposto crime

LISPECTOR, Clarice. A maçã no escuro. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

A autora Clarice Lispector nasceu na Ucrânia no ano de 1920, com dois meses de idade chega ao Brasil junto com seus pais e duas irmãs, mais precisamente na cidade de Recife. Autora de várias obras, descreve-se como “escritora amadora, escreve apenas quando tem vontade, e não profissionalmente porque pretende manter sua liberdade”. Seu primeiro romance foi “Perto do coração Selvagem”, o qual levou o Prêmio Graça Aranha.

O livro “A maçã no escuro” é considerada uma de suas mais importantes obras e está dividida em três capítulos: primeira parte “como se faz um homem”; segunda parte “nascimento do herói”; e a terceira parte; “a maçã no escuro”, onde ela expõe o pecado, como atos impensados e o surgimento de um outro ser, como parte fundamental da evolução do ser humano. A autora revela a angústia e o conflito interno sendo marcas de suas obras. Clarice desenvolveu em suas obras um estilo literário ímpar, com livros marcados por singularidade e inovações linguísticas.

Nessa obra, a autora descreve a história de Martim, um homem que foge de um suposto crime que cometera contra a esposa. Na fuga, ele chega até a fazenda de Vitória, uma mulher autoritária que também foge de um passado que não traz boas recordações. Martim, em meio a esse conflito de fuga, consegue se descobrir como homem, desprezando antigos valores e buscando outra forma de sobrevivência. Martim, ao chegar ao sítio, diz ser engenheiro e tenta convencer Vitória, mas ela em nenhum momento acredita, mesmo assim contrata-o para fazer os mais variados trabalhos. No sítio, há outros personagens como Ermelinda, prima de Vitória, uma viúva que se apaixona por Martim, Francisco que trabalha no sítio e a Preta cozinheira. É nesse contexto do sítio que se desenvolve a maior parte da obra. Não fugindo a seu estilo, a autora leva os personagens ás reflexões mais profundas de seus inconsciente, ficando em segundo plano o meio externo, suas obras revelam as mais íntimas aflições do indivíduo e nessa obra não foi diferente.

A narrativa em vez de julgar os personagens culpados ou inocentes faz deles aprendizes do mundo. Martim desde sua fuga tenta se livrar do pensamento do crime, e com isso busca novas formas de ver a vida e as pessoas, mas procura ser muito cauteloso com suas palavras. Para não cair em contradição com a verdade que havia contado, passa a maior parte do tempo sozinho e em buscas de respostas para aquele ato que teria cometido. No terceiro capítulo, ele descobre que sua mulher está viva, o que leva-o a uma liberdade ainda maior de seus sentimentos e agora poderia recomeçar sua história sem sentimentos de culpa.

Esse livro é o mais extenso de Clarice Lispector, com 334 páginas, também é a primeira vez que um homem é personagem principal de sua obra, segundo a autora “foi o único livro bem estruturado que escrevi, acho eu” (GOTLIB, 1995, p. 336)¹.

A autora nos leva a ir além de nossas aparências, é uma obra de suspense que faz reflexão o tempo todo com os personagens, faz com que o leitor volte para seus pensamentos mais obscuros, dá a impressão de que todos escondem algum segredo até mesmo quem está lendo, que acaba se envolvendo com o personagem, realmente vale a pena conferir essa narrativa.

Jane Aparecida Diceti, Acadêmica do Curso de Graduação em Letras Português e Espanhol - Licenciatura pela Universidade Federal da Fronteira Sul – Realeza-Pr.

¹GOLTLIB, Nádia Battela. Clarice, uma vida que se conta. São Paulo: Ática, 1995

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