segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Resenha: Fingindo diante da realidade

AZEVEDO, Aluísio Tancredo Gonçalves de. O mulato. 13ª ed. São Paulo. Editora Ática S.A. 1996.

Aluísio Azevedo nasceu no Maranhão em 1857. Desde muito jovem demonstrou interesse e vocação para as letras, tinha paixão por leitura. Aos 19 anos, saiu de sua terra natal e foi para o Rio de Janeiro, lá trabalhou em vários jornais como caricaturista, em 1879 retornou ao Maranhão. Entre 1880 e 1881 militou contra o clero e os jornais católicos, esta militância influenciou na publicação da obra “O MULATO”. O livro foi publicado em 1881. Azevedo introduziu através de sua obra o Naturalismo na Literatura Brasileira e fez uma crítica anticlerical e antirracista da sociedade Maranhense, com isso, despertou a irá nos indivíduos de sua cidade natal e teve que retirar-se dela.

O romance “O MULATO” nos relata a história de um jovem chamado Raimundo, filho do fazendeiro José Pedro da Silva e de sua escrava Domingas (mulher negra). Raimundo saiu de São Luís do Maranhão quando criança, sem saber de sua verdadeira origem e foi para Lisboa estudar, depois de anos na Europa, tornou-se um bom advogado e quis voltar ao Brasil para desvendar suas origens.

Quando a mãe de Raimundo morreu, seu pai o levou a morar com o tio. Voltando para casa, encontra sua esposa Quitéria e o padre Diogo em pleno adultério. Confuso, ele mata a esposa e tem o padre como testemunha. Após o acontecido, José abandona a fazenda e vai morar na casa de seu irmão Manuel e adoece. Ao retornar à fazenda, foi tocaiado e morto, por ordem do padre Diogo. Por muito tempo as pessoas tiveram uma visão de que a figura sacerdotal é uma figura sem pecados, não comete erros e só pensa em fazer o bem aos demais. Mas hoje, sabe-se que os sacerdotes ou religiosos são pessoas iguais a nós, que erram, pecam como qualquer outra. Na época que este romance foi escrito, a maior parte da sociedade ainda tinha a visão de que os religiosos eram “santos”, não faziam maldades, não pecavam. No entanto, o autor deste livro fez uma crítica colocando exemplos em sua obra de alguns erros cometidos pelos sacerdotes, como o do padre Diogo.

Ao retornar para o Brasil, Raimundo passa um ano no Rio de Janeiro, depois vai para São Luís. Ao chegar é bem recebido pela família do tio Manuel. Com sua pele morena e com seus olhos azuis, desperta desejo e atenções em sua prima Ana Rosa, a paixão entre primos é correspondida. Porém, esse amor terá que lutar contra o preconceito e as proibições familiares. Sua avó Maria Bárbara, mulher racista, tinha conhecimento sobre as origens de Raimundo e não queria que a neta se casasse com um rapaz de origem negra. Neste romance, percebe-se muito bem o racismo contra pessoas negras. A avó de Ana não era contra o namoro por motivo deles serem primos, mas por ele ser filho de uma escrava negra. Esses tipos de preconceitos estão em nossa sociedade até o presente momento, pois não julgamos as pessoas pela capacidade que possuem, mas por sua diferença, pela sua cor, pelo cargo que ocupam na mesma.

Obcecado por desvendar suas origens, Raimundo insiste em visitar a fazenda onde nascera. Durante o percurso, ele descobre as primeiras informações sobre o passado trágico de seus pais. Aproveitando o momento a sós com o tio pede a mão de Ana em casamento, depois de várias recusas ele acaba descobrindo que a mesma se deve a sua origem negra. Ao retornarem para São Luís, muda-se da casa do tio e decide voltar para o Rio de Janeiro. Pouco antes de viajar, manda uma carta para Ana confessando seu amor e este amor pela prima o impede de partir. Os dois se encontram (mesmo sendo proibidos) e ela acaba engravidando. Naquela época, ou até mesmo nos dias atuais, se uma moça chegasse engravidar sem ser casada ficava mal falada por toda a região e ela estava prestes a “cair na boca” das fofoqueiras de plantão.

Contra tudo e todos, eles armam um plano de fuga. No entanto, a carta principal foi interceptada por um cúmplice do padre Diogo, o padre usava as confissões de Ana para interceptar as cartas do casal e a concretização da fuga. No momento exato da fuga, o casal foi surpreendido e armou-se o maior escândalo, mas o padre finge-se de protetor deles. Raimundo volta para casa e, ao abrir a porta é atingido nas costas por um tiro disparado pelo caixeiro Luís. Ela, atordoada, aborta o filho. Passaram-se seis anos e Ana estava casada com o senhor Dias (o assassino de seu grande amor). Tiveram três filhos e, aparentavam formar um casal feliz. Ana demonstrava ser boa mãe e esposa, sempre preocupada com os filhos e com o esposo Dias. Atualmente ainda existem pessoas que se fazem de amigos e confidentes para se beneficiarem, como aconteceu no romance. Se aproveitando de informações para proveito próprio. Fazendo do outro a escada para alcançar os objetivos desejados, sem pensar se vai ferir ou destruir o desejo alheio.

Marta Richciki Camargo, Acadêmica do Curso de Letras Português e Espanhol da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), Campus Realeza.

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