segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Resenha: Crítica à organização e costumes da sociedade brasileira

VERÍSSIMO, Érico. Incidente em Antares. São Paulo: Círculo do Livro, 1975. 490 p.

Em sua obra “Incidente em Antares”, publicada em 1971, o escritor gaúcho Érico Veríssimo (autor da trilogia O tempo e o Vento, dividida em “O Continente”, “O Retrato” e “O Arquipélago”) tece uma série de críticas à organização política da sociedade e chama atenção para o fato de muitas vezes fazermos vista grossa a várias coisas erradas que acontecem em nossa volta.

Na primeira parte, é narrada a chegada de Francisco Vacariano a uma pequena vila localizada em algum ponto desconhecido do interior do Rio Grande do Sul, no início do século XX para dedicar-se à atividade da criação de gado. A cada ano que passa, Vacariano vai acumulando riqueza e se apoderando cada vez mais do lugarejo, transformando-se na figura de “poderoso chefão” do local.

Porém, a hegemonia de Vacariano é diminuída quando chega a família Campolargo. Tão rica quanto os pioneiros, a família Campolargo também se sente confortável na posição de dona da vila. Ambos os patriarcas dos clãs nutrem antipatia mútua um pelo outro logo no primeiro encontro. O ódio aumenta ainda mais quando o patriarca dos Campolargo, Anacleto, usa de sua influência política para elevar a pequena vila à condição de cidade. Durante várias passagens do livro, confrontos sangrentos são travados, sempre com a morte de inúmeros membros das famílias e seus correligionários. Aqui é possível analisarmos a busca pelo poder econômico e político dentro da cidade. A família que conseguisse arrebanhar mais simpatizantes, enriquecer e ampliar os seus domínios territoriais, carregaria o posto de líder suprema de Antares.

Tais embates ainda são comuns dentro da sociedade atual. Para isso, basta observarmos as rixas políticas que assistimos até os dias de hoje no horário eleitoral: para conquistar o poder, vale tudo.

Na obra, ainda, é possível analisarmos a vida do povo. Deixando um pouco de lado a briga entre os chefões da cidade, tem-se pessoas pobres, que são meros figurantes das brigas protagonizadas pelas duas famílias. Veríssimo entra no mérito de descrever a história de algumas destas pessoas, como a de João Paz, que, por ideologia política, é morto pela polícia depois de muita tortura. Além dele, a obra narra a vida de outras pessoas que têm uma vida miserável, que são humilhadas pelos poderosos. Aqui também é possível traçarmos um paralelo com a atualidade: na vida real, enquanto os líderes políticos apenas se preocupam em angariar mais eleitores, o povo não tem à sua disposição nem o básico para a sobrevivência: educação e saúde de qualidade.

Percorrendo mais algumas páginas da obra de Veríssimo, chegamos ao principal momento da obra. O ano é 1963. Sete defuntos levantam de seus túmulos e começam a apontar as coisas erradas que acontecem na cidade: a violência cometida pela polícia nos inocentes (a prática foi extinta com o tempo?), a pederastia feita pelo diretor da escola, a corrupção na administração pública, a cobiça, a mentira, a traição... Fazem parte da comitiva de além túmulo, a matriarca da família Campo Largo, Quitéria, o frustrado pianista Maestro Menandro, a prostituta Erotildes, o subversivo João Paz, o bêbado Pudim de Cachaça, o barbeiro anarco-sindicalista Barcelona e o corrupto advogado, que, depois de morto tenta se regenerar, Cícero Branco.

Enquanto não são enterrados decentemente, porque os coveiros da cidade estavam em greve, descarregam todas as coisas erradas que acontecem na sociedade. A pergunta que não cala: por que, enquanto vivos, os defuntos não fizeram o mesmo? Parto do seguinte ponto de vista: como estão mortos, se consideram livres das pressões sociais e, assim, podem, tranquilamente, passar em revista o comportamento de seus parentes e amigos, lançando um olhar crítico sobre toda a sociedade.

Para finalizar a obra, Veríssimo tem a sagacidade de transcrever aquilo que acontece exatamente na realidade. Mesmo com todas as acusações, injustiças e violências acusadas pela “turma do além”, ninguém é condenado e tudo volta a ser como era antes. Os órgãos “competentes” tratam de criar uma “Operação Borracha”, liderada pelos próprios indivíduos que sofreram acusações por parte dos defuntos, com o objetivo de fazer a população esquecer da visita indesejada. No final, tudo acabou em festa e a maioria das pessoas fez questão de “apagar” da memória os dias em que tiveram a companhia dos mortos.

Saindo da ficção, acredito que a “Operação Borracha” também acontece na nossa sociedade, embora de maneira “maquiada”, como por exemplo, quando o governo trata de encobrir certos acontecimentos, direcionando a atenção das pessoas para outros fatos. Como se vê, os problemas apontados por Veríssimo através de “Incidente em Antares” são praticamente os mesmos da atualidade.

Lucas Sidnei Carniel – Acadêmico do Curso de Letras da Universidade Federal da Fronteira Sul, Campus Realeza – PR

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